12 de jul. de 2026

O Senhor do Ponto e o Cão na Janela

Crônica "O Senhor do Ponto e o Cão na Janela"


Desde que descobri que há um local em outro bairro onde as pessoas podem soltar os cachorros para se divertir, tenho ido até lá para dar uma volta e deixar o nosso cão mais contente entre os pequenos e grandes da espécie dele. Espero que eu não tenha feito você pensar que as pessoas iam neste local para xingarem umas com as outras como forma de “soltar os cachorros”. Não era esta a minha intenção, embora eu tenha convicção que você possa ter imaginado a cena de um parque gramado onde isso poderia ocorrer. 

Shih tzus, galgos, golden retrievers, labradores, border collies, pugs, lhasa apsos, os ínfimos e extremamente nervosos pinschers e, inclusive como o meu, vira-latas caramelos, correm e brincam como se não houvesse o amanhã. Todos os cachorros, aqueles que são fruto de seleção artificial humana ou natural, vão até as portinholas do parquinho receber os novos amigos que chegam. Novos amigos entram, eles se cheiram e depois vão correr ou fazer outra coisa. Ainda não vi neste parquinho qualquer indício de cachorros das tão aclamadas raças antes muito comuns como pastores alemães, yorkshires e poodles. É incrível como até no mundo pet há uma certa moda. Por onde andam os pequineses com aqueles dentes de baixo sempre a mostra!? 

Com isso, agora faço parte de uma outra confraria intrigante além de outras que já faço parte: a confraria dos tutores de cachorros que vão ao pequeno parque cercado e bem cuidado para apreciarem os seus cães brincarem uns com os outros. Alguns não “brincão”, com o perdão do neologismo, apenas latem com os outros cães, como delegados ou madres superioras que querem mandar nos subalternos. O meu cão, o Sushi Temaki Parmegiana, tem uma determinação na vida: tudo à sua frente é algo que precisa ser devidamente demarcado com a sua urina. 

Tudo! Desde postes e árvores, que são as vítimas mais tradicionais, até pequenas folhas soltas no chão, alambrados, pedras e qualquer coisa que possa significar um mictório canino. 

E o nome do nosso cachorro, você gostou? São dois pratos que eu e minha filha gostamos e, na época da chegada do Sushi, pensamos que o gosto dela por temaki e o meu pelo bife a parmegiana fosse uma boa ideia para um sobrenome inusitado para o cãozinho. 

Enquanto outros cães correm, pulam, ele está mijando por tudo ao redor do campinho lindamente gramado nos fundos da praça belamente planejada e cuidada. Tudo é altamente “mijável” para ele, por mais que o corretor ortográfico digital queira que eu altere para “amigável” o termo que acabei de usar. Não à toa enquanto vamos até lá de carro ele está em todo o percurso choramingando na janela com o vento nos pelos e pensando “em tudo isso eu poderia mijar, mas está passando bem na frente dos meus olhos…”. 

Na rua, este instinto dele é algo tranquilo de se lidar, mas você não imagina o problema que é dentro de casa. Cortinas, vasos, sofás e até cadeiras podem ser premiadas com o infalível mijo do mestre de todas as urinas caninas. 

Eu juro que, se você visse ele na janela do carro, certamente também ia chegar a esta conclusão! O Sushi quer marcar o seu lugar no mundo em alta velocidade. Mas é justamente no meio desse caminho, enquanto o meu cão tenta devorar a paisagem com os olhos, que meus próprios olhos sempre travam em uma imagem de absoluta permanência. Seja de manhã ou à tarde, nunca à noite. Algo que me intriga quase sempre que vamos até o tal parquinho dos cachorros e está bem no meio do caminho. 

Seja de manhã ou à tarde, nunca a noite, sempre que passo em um trecho onde há um ponto de ônibus bem em frente a uma escola municipal, há um senhor serenamente sentado em um ponto de ônibus. Há algo muitíssimo peculiar naquele senhor. 

A cena sempre é intrigante, até porque se repete diariamente, especialmente pensando que eu tenho convicção de que ele pode nunca ter entrado em quaisquer dos ônibus que passam por ali, onde todos os outros cidadãos estão subindo ou descendo. 

Eu adoraria poder fazer um vídeo em timelapse, daqueles que a cena parece passar rapidamente, para poder mostrar a você o mundo rodando em torno do ponto de ônibus enquanto este senhor fica ali sentado por longas manhãs e tardes observando tudo e todos que passam. 

Preciso lhe pedir perdão, pois ainda não descrevi a figura do nosso senhor do ponto de forma palpável para você. Pense na figura indubitavelmente francesa alta e magra do General Charles de Gaulle com o seu narigão, embora o nosso personagem seja um pouco menor do que os um metro e noventa e seis do general francês. Agora, troque o quepe militar por um boné bem simples, troque o olhar altivo por um olhar cabisbaixo e perdido e, por fim, insira uma barba e um bigode ralos. Faltou dizer que ele, por vezes, veste camisetas de futebol conforme seus times ganham algum jogo importante. É importante dizer que ele anda de forma lenta e pausada. Sim, embora quase sempre eu o veja no ponto, poucas vezes eu o vi andando. Algumas vezes já o vi catando latinhas segurando um saco de lixo. 

O que pode ter ocorrido com este senhor? Seria ele um velho marinheiro aposentado por algum acidente que possa ter ocorrido em uma viagem a outro continente? Um ex-combatente de alguma guerra ou conflito armado que lhe deixou um tanto atônito com estresse pós-traumático eterno? Ou seria algo de infância, que ele traz até hoje em seu semblante e hábitos? Por que ele passa manhãs e tardes no ponto vendo o mundo passar em frente aos seus olhos atenciosos e curiosos? Ele fez a escolha da permanência, por vezes no ponto do lado da escola, outras no ponto que há no outro lado da mesma rua.

Por algumas vezes já o vi no mesmo ponto tomando uma latinha de cerveja. Seria para ele todo o cenário do ponto de ônibus e da rua uma televisão ou cinema com imagens realistas em diversas dimensões, Altura, largura, profundidade, tempo, sensações e interações? Seria ele um antropólogo amador da cidade que, enquanto todos se entretêm com suas telas de celular, ele está entretido com a vida de todos que por ali passam ou ficam pelo tempo da chegada do seu próximo ônibus. 

Agora só posso supor que eu posso ser um dos personagens que ele mapeou. Arrisco dizer que, para ele, sou o homem grisalho que passa com o cachorro na janela olhando para ele atentamente demais a partir de um carro vermelho, tal a minha curiosidade sobre ele. Neste ponto, já sou um dos registros dos cidadãos que passam por ali mais vezes na cabeça dele. Decidi agora mesmo a sempre que passar por lá comprimentá-lo com as mãos como se eu o conhecesse. Sempre gostei de fazer isso quando passo de carro por alguém em cidades do interior. Sinto uma sensação de pertencimento àquela paisagem e comunidade. Já fiz isso até mesmo com carro alugado em outros países de outros continentes. 

Sentado ali, ele pode se sentir parte do fluxo urbano. Talvez, quem sabe, ele tenha trabalhado a vida toda como um motorista ou cobrador do transporte público, ou simplesmente pegava ônibus naquele mesmo ponto há 40 anos para ir trabalhar todo santo dia. Estar ali é manter o cordão umbilical com a sua própria utilidade e juventude, da época em que ele se sentia útil e produtivo. O ônibus passa, o motorista muda, os passageiros envelhecem, mas ele permanece ali como um marco atemporal, uma estátua viva da memória do bairro. 

Fico pensando em um possível mapeamento que ele faz das pessoas que vê passando ou utilizando o ponto de ônibus. Teria ele mapeado quem está por ali em cada dia da semana? Quem está indo a uma entrevista de emprego, quem volta cedo do trabalho pois tem uma rotina diferente. Pensaria ele sozinho “Olha! Lá vem aquela moça das quartes-feiras com aquele perfume esquisito!” ou, “Acho que trocaram o motorista do ônibus de sexta-feira da linha Córrego Grande 164. Será que ele ficou doente?” ou “Eita! Lá vem aquela senhora que insiste em puxar conversa comigo depois que volta da feira na quarta!” ou “Tocou o sinal de saída da escola! Acho que vou embora pra não ter que escutar as baboseiras daqueles meninos que só querem saber de futebol!” ou “Nos últimos anos só vejo aquele idoso andando sozinho. Será que a esposa dele faleceu?”. 

Me intriga sobremaneira a história deste de Gaulle entristecido que vê o mundo a partir de um ponto de ônibus. O que o faz sair de casa para usar o ponto como uma arquibancada para ver o mundo? Teria ele alguma condição cognitiva especial que o limita ou trata-se apenas de uma escolha de vida? Essa última hipótese acho muito pouco provável!

Talvez uma frustração amorosa ou alguma desilusão com um filho ou filha o tenha jogado em depressão tal que a vida possa ter se resumido a algo muito menor do que ele possa imaginar e usufruir, o que seria um dos cenários mais tristes para o nosso personagem da vida real. Qual foi a II Guerra Mundial que o nosso de Gaulle enfrentou?

Conheço muitas pessoas que passaram por algumas das coisas que citei antes e que não conseguiram lidar com as provas que o mundo lhes trouxe. Algumas se jogaram no álcool, no uso abusivo de drogas, nas duas coisas ou muito pior. Muitos moradores de rua possuem histórias como estas, com problemas na vida familiar ou amorosa que não conseguiram suportar. Para muitos, isso é uma ruptura tão grande que a vida parece não ter mais sentido. Alguns, infelizmente desistem tanto da vida que decidem finalizar com a própria existência ali mesmo. Pra mim, isso acaba por ser uma desonra sem tamanho para com todos os seus ancestrais que vieram antes e que por muitos milênios suportaram coisas parecidas e certamente até muito piores.

Mas para a nossa felicidade o nosso de Gaulle está lá, sentado no ponto, vendo tudo passar. O ônibus chega, deixa algumas pessoas e leva outras, os estudantes do colégio logo atrás do ponto passam indo ou vindo de casa. Os carros, as motos, as bicicletas passam e lá está ele. 

Ele não espera um ônibus específico, ele espera o tempo passar, ou talvez espere que algo inesperado aconteça. Aposto muito nessa expectativa que ele possa ter! Algo que possa mudar completamente o seu dia monótono. 

Penso também que estar no ponto de ônibus dá a ele uma justificativa social: quem está ali parece estar indo a algum lugar então, ninguém o questiona ou pode sentir pena dele. Estar no ponto o protege do rótulo de "abandonado" ou sem utilidade. Isso me lembra um outro senhor do mesmo bairro que, mesmo sendo aposentado há muitos anos, sempre anda pelo bairro com uma bolsa de notebook que parece estar abarrotada de folhas. Talvez se arrumar e ir sentar no ponto todo dia faça com que ele pareça um homem de negócios cujo transporte apenas atrasou um pouco — digamos, alguns anos.

Parando para pensar melhor vejo que o mundo moderno é obcecado por produtividade, velocidade e eficiência objetiva. Mas o que acontece quando alguém decide, deliberadamente, parar e observar? Sentar-se ali pode ser um ato de rebeldia zen! 

Ele se recusa a correr, a ter algum objetivo produtivo. Ele vê o executivo estressado, a moça correndo atrás do coletivo que talvez perca, o trânsito caótico, e sorri. Espera! Acho que ele não sorri muito não! Pelo menos posso dizer que em todas as vezes que o vi, nunca o vi dando o mínimo ar de poder sorrir. Parece ser alguém que não lembra quando sorriu da última vez. Espero estar errado, inclusive! 

Quem sabe ele já correu tudo o que tinha para correr e descobriu que o destino final é o mesmo para todos. Ele alcançou a paz de quem não deve nada ao relógio. Será!?

Quem está preso de verdade? Ele, que está livre e sentado vendo a brisa, ou as pessoas presas dentro das "latas de sardinha" motorizadas correndo para bater ponto, para levar alguém em algum lugar, para ir ao mercado, academia e tudo mais?

Embora não tenha compromisso algum com outras pessoas em determinada hora ele bate também o seu “ponto no ponto”, assume seu posto com a solenidade de um general francês inspecionando suas tropas — que, no caso, são apenas estudantes sonolentos, trabalhadores tentando equilibrar o guarda-chuva e o café, motoristas concentrados ouvindo rádio ou discutindo com outra pessoa no veículo, outros idosos indo visitar os netos e tudo mais que todas as outras pessoas fazem, exceto o nosso Senhor do Ponto. 

Qual a sua hipótese sobre a história dele?



Notas:

  1. O Senhor do Ponto realmente está lá todos os dias nos mesmos pontos de ônibus e, caso você passe pelo bairro Córrego Grande em Florianópolis/SC, Brasil, você pode vè-lo observar o mundo;

  2. A ilustração utilizada foi criada por mim com a Inteligência Artificial Gemini, do Google, a partir de descrições que fiz do cenário e personagens retratados neste texto.